Paulo Duarte

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O amor cínico e o amor hipócrita

Na cultura em que vivo (e não saberia dizer qual sua dimensão), não se crê realmente em muita coisa. É claro que ele traiu a esposa. Do mesmo modo que pagam impostos sem esperar que eles sejam de fato empregados em benefício público, parece que não acreditamos em quase nada do que realizamos e lidamos no dia a dia. Ela só casou por interesse. Existe uma certa cultura cínica, em que a moral (ou a lei) não é levada a sério. Pura falsidade. Qualquer voto de confiança é encarado como ingenuidade. Você acredita que isso vai sair do papel? De fato existe uma expectativa de que as linhas sejam desrespeitadas. Afinal todo mundo faz isso.

Outras culturas me parecem que são mais hipócritas que cínicas, como acredito acontecer nos Estados Unidos. O peso da moral nestes povos chega a ser motivo de piada para o nosso cinismo, como o caso do seio da Janet Jackson. Claro, existe a possibilidade de traçar um paralelo destas diferenças de nossa história latina e católica com a história protestante dos EUA. Mas deixo essa análise para historiadores, prefiro observar outro aspecto destas possibilidades culturais.

É interessante que tanto o cinismo, ao descrer da moral praticada socialmente, como a hipocrisia, ao afirmar uma moral absoluta que de tão castradora só pode ser mantida na aparência, imobilizam o indivíduo e suas relações. Como no amor, por exemplo.

O amor no mundo cínico não existe. Ou melhor, até existe, mas nunca existe a convicção na possibilidade amorosa. E o descrédito não alimenta o amor e muitas vezes o mata. Sempre há a sombra de quem ama e por quais verdadeiros motivos. Já o amor no mundo hipócrita certamente existe, mas tem que seguir um roteiro fixo no qual só uma pequena parte se encaixará em todas as exigências prescritas. É por isso que amor bom mesmo, na minha opinião, é o amor marginal.

O amor marginal é aquele que fugiu da hipocrisia das convenções, que dizem não ser possível porque ele é pobre, ou ela é mais velha, ou ela é ele, ou ele é mais romântico que ela, ou qualquer outra coisa que contrarie a fórmula da felicidade. Mas também passou por cima do cinismo ao crer na concretização do amor, dentro das possibilidades e particulares do casal (ou outras pessoas envolvidas…). Não é cínico porque aposta num ideal, e não é hipócrita pois o vivência no real, com suas limitações. O amor marginal é aquele com começa com um “mesmo assim”.

Escrito em 22 de Fevereiro de 2004

One Response to “O amor cínico e o amor hipócrita”

  1. 1
    Chuvinha:

    Voce escreve muito bem. Tenho vindo aqui pra ler aos poucos. O cinismo e uma forma de defesa do ser humano. Ele tem MEDO de acreditar. O amor marginal surge porque contrariando as regras faz as pessoas sonharem. Tenha umbom domingo!

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