Paulo Duarte

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Mashup

É interessante pensar que nosso sucesso enquanto espécie tenha acontecido, não apenas pela capacidade de produzir e acumular conhecimento, mas também pela incrível promiscuidade com que lidamos com ele. Transmitir informação costuma ser prazeroso, afinal não é por acaso que a fofoca é tão praticada. Por sua importância, gostamos não apenas de compartilhar mas também de conservar o conhecimento. A escrita é o fruto bem sucedido desta empreitada que nos permite presenciar hoje os diálogos do banquete de Platão, tal como foram travados no século V a.C… Bom, na verdade não exatamente. Existe o erro.

As interpretações e as lacunas povoam os espaços entre as palavras. Normalmente mal-visto, o erro na transmissão também tem seu papel renovador, tal como a mutação genética que acidentalmente apresenta inovações úteis. Ao tentarmos reproduzir artesanalmente um objeto ou lembrar uma idéia é muito comum não conseguirmos exatidão no resultado. Idéias são corrompidas, técnicas são mal compreendidas e o objeto pode resultar pior ou melhor que o original (ou se quisermos suprimir qualquer juízo, simplesmente diferente). Qualquer dona-de-casa que copiou uma invejável (e inimitável) receita de uma amiga sabe disto. É difícil repetir uma idéia mais complexa, com exatas palavras, seguindo o mesmo encadeamento de argumentos sem anotá-la primeiro. Mesmo o esforço consciente de decorar pode resultar em erro nos melhores atores. Quem nunca se divertiu com a brincadeira do telefone sem fio?

Como é difícil perdemos velhos hábitos, a promiscuidade com a informação continua sendo forte. As redes sociais virtuais, a pirataria de software e a troca de músicas em redes de compartilhamento de arquivos ao redor do globo mostram que as pessoas se sentem naturalmente propensas trocar informação. Porém, ao contrário das épocas passadas, esse telefone sem fio de milhões de usuários raramente erra.

As patentes são um bom exemplo de como nossa forma de lidar com a informação mudou e um dos motivos é que aprimoramos nossa capacidade de replicá-la com precisão. Se já acostumamos com a idéia de que objetos podem ser feitos em qualquer parte do globo e resultam virtualmente os mesmos, desde que sigam as mesmas especificações, agora essa fidelidade se aplica também as informações. Músicas, livros, discursos, imagens, movimentos: tudo sempre idêntico em suas infinitas cópias. Os flagrantes feitos com dispositivos como celulares e conservados indefinidamente na internet mostram que qualquer momento de descuido pode ser eternizado e reprisado ad nauseum. A propriedade intelectual ainda impõe um limite à transformações das idéias que, possuindo um dono, estão sujeitas a transformações apenas por ele permitidas.

No entanto, nem tudo está perdido e condenado a repetição. Pessoas de todo mundo, legal e ilegalmente, produzem corruptelas de informações anteriores ou deliberadamente reutilizam em outras misturas. Essas misturas tem o nome de Mashup.

Mashup é uma palavra que pode significar muitas coisas. Uma delas é a recriação de músicas e vídeos através da edição de trechos de um ou outros. Pessoas adoram essas brincadeiras e eles podem ser assistidas aos montes no youtube.com. Se estas iniciativas amadoras precisam das vistas grossas para a questão propriedade intelectual, as empresas de tecnologia também fazem seus Mashups: neste caso são websites que utilizam conteúdos de mais de uma fonte de dados para criar algum novo serviço, como o WikiMapia.org que utiliza os dados do Google Maps para realizar um mapeamento colaborativo de todo o globo.

Ao lado de movimentos organizados como os de software livre, ou conceitos flexíveis de propriedade intelectual, como o creative commons, os mashups existem como um fenômeno representativo da nossa vocação para lidar com a informação de uma forma generosa, como nossos ancestrais costumavam fazer. Colabore com esta mistura. Como o leitor poderá perceber, existe ainda espaço para erros, propositais ou não.

Publicado originalmente em 07 de Dezembro de 2006

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