Paulo Duarte

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Indigna ação

Tenho me perguntado se a indignação constante em nosso país diante alguma possibilidade (tantas vezes levantadas e nem sempre apuradas) de impunidade em crimes na esfera pública seja algo benéfico. Não me agrada a forma cínica com que lidamos com o comportamento alheio onde, via de regra, o outro é sempre um desrespeitador das leis até que se prove o contrário. Como, por se tratar de uma evidente inversão do ônus da prova e não podemos afirmar a inexistência de algo, todos são culpados por padrão.

Alguns podem justificar que o sentimento de indignação é justo, o problema estaria em este não tornar-se ação. Tenho a impressão que este sentimento é a ação e, neste caso, uma ação que termina por aliviar-nos da responsabilidade e permite voltarmos as nossas vidas repletas de pequenas infrações. Não é uma novidade a idéia de que sentimentos podem ser estagnantes, como muitas vezes já escreveram sobre a culpa.

A culpa, carregada pelo sofrimento e acompanhada de uma contrição fruto das nossas tradições católicas é um claro exemplo de sentimento que paralisa. Erramos, sofremos, nos arrependemos fortemente…. e estamos prontos para errar de novo. Talvez nossa indignação passe por processo semelhante.

No entanto, tenho outras questões que acredito devam ser consideradas. No caso da indignação presente nas bocas, nas páginas e telas, ela soa muito mais como constatação que mobilização de forças (mesmo que para um alívio próprio e particular). Parece uma espécie de vigilância ao avesso, para confirmar o erro do outro, que seria igual ou maior que o meu.
Isso denota outro aspecto curioso da nossa indignação que me faz pensar que ela seja sintoma de um problema: o incrível rigor com que demandamos que sejam aplicadas as penas: nunca é suficiente. Quer-se mais, prisões mais duradouras, cárceres mais restritivos. Sofrimento deve ser o motor da justiça, com penas mortais e dolorosas. Esse falta de empatia com os criminosos no entanto não se parece com a hipocrisia dos que querem se considerar santos, nem com o desejo de não se identificar capaz dos mesmos atos (uma reação natural em crimes violentos). Esta forma cruel da desejo de punição parece-me mais relacionada com a indiferença dos que não sabem, eles próprios, o quanto é difícil seguir a lei. Traço de um povo que vive alienado nas pequenas infrações cotidianas e desenvolveu uma relação ambígua com o crime e os criminosos.

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